Em princípios de Dezembro do ano passado fui a Luanda, num fim de semana conhecer essa cidade que há tanto tempo queria conhecer. Fui inserido no grupo que ia acompanhar o Bana, artista que é muito querido por essas bandas.E por isso mesmo esperava que pormenores relacionados com a estadia fossem dignos de um senhor com um nome da dimensão do nome “Bana”, dimensão essa elevada a 3 em terras angolanas.
Mas antes de chegarmos a esses pormenores, meu querido diário, queria aqui contar-te a odisseia que foi o desembarque no Aeroporto de Luanda na primeira sexta-feira do mês de Dezembro de 2005.
O Boeing 747-200 da TAAG carregadinho até à boca (200 almas a bordo) chegou ao mesmo tempo que um outro avião de igual modelo e igualmente carregado que vinha do Brasil, de modo que de um momento para outro éramos 400 passageiros dentro de uma aerogare, nos serviços de fronteira, que mal levava 50 almas.
Ares condicionados deficientes à parte, lá conseguimos sair do aeroporto duas horas depois. Travei nessa altura conhecimento com o Sr. Cabé, pai de um outro grande músico, o Paulo Flores. E fiquei a saber que o Cabé seria o nosso cicerone.
Lá nos dirigimos ao Hotel ALAMEDA para deixar as malas e irmos almoçar. Não sei porquê, o dito Hotel não me inspirou confiança, mas para não ser o “ ainda-agora-chegou-e-já está-a-ser-chato”, lá seguimos viagem para um restaurante de comida a quilo.
Depois do farta brutos, dirigimo-nos ao local do espectáculo para o check sound que deveria durar uma hora para que depois pudéssemos voltar ao Hotel para descansar das sete horas de voo feitas durante a noite. Mas, por motivos técnicos, acabámos por ficar toda a tarde nesse local, dado que o técnico destacado para esse espectáculo também tinha outro concerto a sonorizar algures (?!) e o substituto percebia tanto de som quanto eu de culinária.
Para tentar resolver o impasse, o meu colega e companheiro de viagem Humberto Ramos, teclista da banda, resolveu tomar conta da questão e o som que se fez, foi o que foi possível fazer.De regresso ao “Hotel”, começaram os problemas.
O quarto do Costa Neto, baixista desta caravana, cheirava a esgoto que tresandava. Havia uma mosca que mais parecia um Bombardeiro B52, morta espalmada no vidro de uma das janelas do quarto e que, segundo ele, parecia lá estar há mais de 3 meses. E para que não ficasse apenas pela opinião dele, fui de propósito ao quarto verificar as queixas por ele feitas e entretanto apresentadas à recepção.
Cheirava a merda mesmo e a mosca já estava seca ressecada...
Nisto, chega a empregada de spray ambientador em punho, feito soldado salvador da Pátria, que prontamente disse ao Neto que ia resolver o assunto. Claro está! “Spraiou” o quarto todo e o efeito, como podes imaginar meu querido diário, foi odorificamente nefasto. Os dois odores juntos, faziam lembrar as bombinhas de mau cheiro utilizadas no Carnaval.
Em vão, Costa Neto pediu que lhe mudassem de quarto. Eu entretanto abandonei o cenário porque restava pouco tempo para o merecido descanso antes do regresso à sala de concerto.

O meu colega de quarto, o Toy Paris, por esta altura já dormia a bom dormir. O nosso ar condicionado mais parecia um rotor de helicópetero, o que me impedia de apanhar uma “djonga”. Tentei fechar a máquina, mas o calor atacou de tal forma que tive que a ligar de novo. Resultado, não houve sono nem descanso para mim.
Nesta fase, comecei a pensar em soluções.
Só tinha uma. Pedir à minha irmã que vive em Luanda há já mais de 15 anos, que me desse guarida em sua casa. Mas aí a consciência começou a pesar devido ao facto de, ao ir para a casa da mana, abandonava os meus colegas nesta odisseia inesperada. Mas, pesando os prós e os contras e delineando uma “estratégia de ataque” contra a Organização deste evento, lá peguei o telefone do quarto para fazer a ligação para a minha mana.
Ligação directa à rede, mentira. Tive que sair do quarto, descer o 3º andar e dirigir-me à recepção para perguntar como se faziam as ligações telefónicas a partir dos quartos (sim porque não havia instruções nem me respondiam da recepção).
Resposta obtida, voltei aos meus aposentos, liguei para a recepção e (finalmente) atende-me um senhor a quem eu pedi que me completasse a ligação. Como resposta, o senhor disse-me: “Neste momento estou ocupado, se não se importar daqui a dois minutos, eu ligo para si para completar a sua ligação.”
Não obstante ter achado pouco ortodoxa aquela situação, lá resolvi aceitar. Dez minutos depois, voltei a ligar para a recepção já com um tom de voz um pouco menos amável e lembrei, desta vez a uma senhora, que queria fazer uma ligação.
Ligação feita, pormenores combinados, já eram horas para nos levantarmos e prepararmo-nos para o big show!
Dirigi-me à casa de banho para um banhinho refrescante, qual quê!!! Não havia água!!!
Acordei o Toy e fui-lhe avisando da situação, o que o fez ficar muito mal-humorado. Ele dirigiu-se à recepção e armou o competente barraco…
Lá apareceu uma solução que passava por nós nos lavarmos nas casas de banho dos camarins da sala de concertos.
Uma vez lá, não havia, como seria de esperar, banheiras. Apenas lavatórios… Bem… Engolido que foi o sapo pelo rabo, preparámo-nos para o concerto.
Entretanto, entra em cena o Cabé, a quem nos dirigimos para apresentar as queixas que naturalmente tínhamos para fazer.
Nesta fase, fiquei também a saber que o nosso Artista cabeça de cartaz, Bana, encontrava-se hospedado no Hotel Alvalade, dito o melhor da Cidade de Luanda.
Quando este chegou ao local, fizemo-lo saber da realidade, ao que ele prontamente se disponibilizou a tratar do assunto junto das pessoas competentes, pois, “em inúmeras vezes que tinha sido convidado a ir a Luanda, nunca tal situação acontecera”.
Bem, irritações à parte, fomos agradavelmente surpreendidos com o show de abertura da Paty Faria (Patrícia Faria), artista com muita energia e consequente vida em palco, que me deixou espantado.
Lá fizemos a nossa parte com um som bem pior do que aquele que tínhamos conseguido à tarde... (nunca pensei que isso fosse possível…).
Cumprida que foi a missão, parti pá borga, na companhia da minha querida irmã que me levou para uma discoteca de um homónimo meu masculino mas não fanático...
No dia seguinte, Sábado, passei a cumprir o que entretanto tinha sido combinado de véspera com o Cabé e o restante pessoal. Iríamos depois do almoço corrigir o som para que o espectáculo desse dia tivesse melhores condições sonoras.
Com mais tempo, mais calma, bem descansados mas nem por isso com água no Hotel, os meus colegas apareceram à hora combinada (reclamando, como não podia deixar de ser, da falta desse líquido precioso), e lá fomos fazer o som merecido, quer pela qualidade do espectáculo que se pretendia, quer pela aparelhagem que nos tinha sido posta à disposição.
As queixas apresentadas ininterruptamente ao Sr. Cabé, pareciam não surtir efeito, apesar dele sempre dizer “o problema vai ser resolvido”…
Feito o som e devolvidos às nossas casas, preparámo-nos para o segundo concerto da viagem.
À hora combinada lá nos encontrámos nos bastidores da sala do concerto/dançante e qual não foi o meu espanto, o Toy Paris informou-me que a situação deles no Hotel continuava igual, sem ter sido resolvida a questão da falta de água.
Aí, meu querido diário, saltou-me a tampa. Fiquei indignado. Afinal que falta de respeito era esta? Não é que quiséssemos ser tratados como príncipes, mas o mínimo que podíamos exigir eram as mesmas condições que cada um tem em sua casa.
Eu estava bem, com água quente, ar condicionado e bebida fresca no frigorífico, mas nem por isso podia ficar sem me preocupar com a situação dos meus colegas.
Tentei, meu querido diário, tentei brigar, falei com o Sr. Cabé, falei com o Sr. Bana, fiz a minha revoluçãozinha, mas em vão. Comecei a perceber que as pedras do xadrez eram, algumas, apenas representantes de outras peças desse mesmo xadrez.
Comecei a perceber que os meus colegas já se marimbavam para o caso e veio-me aquela raiva provocada pela impotência, pelo facto de não ter podido mudar a situação, pelo facto de me sentir usado e mais uma vez terem-me faltado ao respeito, eu que já ando nestas lides há muitos anos e que já passei por muita coisa, que já fui muito bem tratado em situações menos “VIP’s” mas que também já anulei concertos por situações bem menos desrespeitadoras.
E como consequência disso, subi ao palco muito mal disposto, coisa que detesto fazer, por respeito ao público.
TINHA que fazer qualquer coisa antes que a raiva me afectasse ainda mais, de modo que, no segundo imediatamente anterior à nossa entrada em palco, o copo de whisky que tinha na mão (nessa altura já vazio, ora bem!, depois disto tudo, ainda ficava sem a minha bebida preferida, não?!…) foi parar ao chão propositadamente, desfazendo-se em cacos. Ora bem!!!
A partir desse momento, fiz o meu trabalho, quando acabei, arrumei o que era meu e pirei-me pá paródia.
Fui conhecer um grande senhor da música de Cabo Verde, Pedro Rodrigues, autor de belas canções interpretadas por inúmeros artistas do nosso universo musical.
No dia seguinte, Domingo, fui conhecer o Mussulo, apanhei um escaldão, muito bom pá gripe que tinha levado de Lisboa e ao fim do dia fiz como fez toda a gente, não falei mais no assunto, yá meu, tá-se bem, quis ir para uma assada, quis ir depois para a casa do Sr. Cabé, quis participar num fim de tarde/noite/madrugada a dentro num convívio musical com o Paulo Flores e alguns elementos da Banda Maravilha, encontrei-me com um grande amigo e colega o Ciro Bertini, com quem convivi alguns meses durante as gravações dos Sons da Fala, quis beber buéééééé de cerveja e, às tantas da madrugada, quis que me dessem boleia para casa.
Fixe, né?
Só tive pena de quem me viu a partir o copo e foi comentar (ou queixar-se ou sei lá o que foi) com o Humberto alterando “alguns” pormenores que fizeram com o este meu colega e amigo acreditasse que o tinha feito em pleno palco…
Ó meu querido diário, sou maluco mas não tanto assim!!!…

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